Nos últimos anos o tema home office ganhou bastante espaço na mídia, e o teletrabalho chegou a virar tópico na polêmica reforma trabalhista. Mesmo assim, ainda pairam muitas dúvidas sobre as cabeças dos profissionais que sonham com o famoso home office, então, queremos compartilhar com você alguns pontos de vista sobre esse universo maravilhoso (ou não).

Podemos partir basicamente de duas situações para o trabalho em home office, é possível prestar serviço como funcionário registrado para uma empresa que seja adepta do sistema, ou como vem se tornando comum atualmente, começar o próprio negócio em sua casa, num escritório ou pequeno espaço reservado.

O cenário mais comum para a situação onde há uma empresa contratante é similar ao sistema de trabalho padrão, onde você acordará com o empregador uma faixa de horário onde estará disponível para exercer as suas funções. É claro que apesar de ser comum, a situação apresentada não é uma regra, e há outras formas considerando produtividade, por exemplo, podem ser aplicadas.

Quando você é “dono do negócio”, e exerce suas atividades em home office, talvez veja a possibilidade de fazer seu próprio horário como a diferença mais valiosa em relação à rotina de trabalho padrão. Apesar de concordar que é realmente libertadora a possibilidade de escolher o horário de sua preferência para encarar o escritório, reforçamos que o foco deverá estar não apenas na entrega e nos resultados apresentados, como também na disponibilidade em faixas de horários que atendam de maneira satisfatória aos seus clientes.

Muitas pessoas têm preferido investir no próprio negócio, diante de um cenário onde as vagas de emprego são escassas e os salários sofrem retração. Apesar de não termos a intenção de vender empreendedorismo ou home office como uma solução mágica, apenas esperando que você largue seu emprego para decolar (sério, não curtimos esse discurso de sucesso milagroso!), somos a favor de que haja consciência do que se ganha (realmente) ao sair de casa todos os dias para trabalhar.

 

O trabalho presencial

O deslocamento

Em 2013, um estudo efetuado pelo IBGE[1], já apontava um tempo médio de 45,8 minutos para o deslocamento da população até o trabalho no Rio de Janeiro, sendo que 27,4% já encarava mais de 1 hora no processo. Além disso, a fatia da população que levava mais de 2 horas na rota casa x trabalho cresceu impressionantes 179% num período de 10 anos.

Salário médio x sair de casa

Considerando o salário médio[2] de um publicitário em torno de R$ 2.580 (R$ 2.160 após descontos[3]), calculamos que o rendimento do profissional seja de aproximadamente R$ 12,27 por hora, ou R$ 98,18 ao dia.

Apesar de já termos incorporado o vale transporte aos descontos apresentados anteriormente, a jornada de trabalho muito provavelmente consumirá mais recursos do seu salário, principalmente através da alimentação. Segundo pesquisa da ASSERT – Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador – e tomando como parâmetro a Baixada Fluminense, temos R$ 28,04 como valor médio da refeição comercial[4], ou em outras palavras, R$ 616,88 mensais do quais podem ser legalmente descontados R$ 516 (20% do salário) a título de vale-refeição. Agora basta incluir um pãozinho e café-com-leite por dia, e como num passe de mágica você estará abaixo da faixa dos R$ 1.600 de salário líquido.

Aquelas horas-extra no dia da pizza

Uma característica marcante das agências de publicidade são os dias que se estendem fora do planejado, acabando literalmente em pizza, e apesar de muitos aceitarem tais dias como algo “normal”, o peso daquela horinha-extra “doada” de bom grado à empresa diariamente resultaria num saldo credor de R$ 269,94 no final do mês. Agora você entende, o porquê da pizza, não é?

Ah, claro! Se ainda assim você entender que uma hora por dia não faz diferença, lembre-se de que mesmo sem fazer horas-extra, você já perde em média 1,5h por dia com o seu deslocamento. Já pensou como seria bom receber R$ 404,91 a mais todo mês?

Segurança

Se você vive no Rio de Janeiro, é altamente provável que já entenda o tópico apenas pelo título, caso contrário basta citar as crises de segurança que explodem em diversos pontos no país, e você perceberá rapidamente que até mesmo a sua segurança (ou falta dela) nas ruas torna-se um fator de peso na hora de pensar em como obter seu sustento.

 

O teletrabalho

Agora que vimos mais de perto uma avaliação de como é trabalhar como contratado em uma empresa atualmente, nada mais justo que desmistificar também alguns detalhes do home office em uma visão onde você é o “dono do negócio”. E já adiantamos que se você acha que é simples, ou que qualquer um pode optar pelo sistema, sabe de naaaada, inocente! 😀

Adeus segundas-feiras de trabalho

Ok! Não podemos mentir que não entendemos esse impulso, mas a realidade é que a segunda-feira vem logo depois do final de semana, e é muito comum que seus clientes entrem em contato para um feedback sobre os projetos não finalizados na semana anterior. Além disso, uma boa parte dos empreendedores planeja a semana às segundas-feiras (os mais focados o fazem no domingo!), e é bem provável que você faça parte das soluções que ele precisará, certo? Mas se aquela praia em plena segunda-feira é o sonho da sua vida, não se desespere, procure estar alguns passos à frente dos seus clientes e converse sobre as diferenças na sua rotina.

Ganho muito mais e não gasto nada

Não se precipite, jovem, meça seus gastos! Não gastar é muito forte quando se trata de tocar o seu próprio negócio a partir do home office, esqueça desde já a ideia de que você está em casa e consequentemente não está gerando custo algum.

Recomendamos que você comece calculando o consumo de energia elétrica do seu escritório, pois itens básicos como computador, telefone sem fio, lâmpada, carregador de celular e ar-condicionado, podem representar um aumento de R$ 300 ao mês na sua conta. É importante não esquecer que estamos considerando apenas o cômodo que é de fato o seu escritório.

É importante também que se identifique outros recursos consumidos para sustentar o negócio, como planos de internet e telefone, que podem superar facilmente os R$ 200 mensais. Vale ressaltar que quanto mais precisas forem as projeções, menos surpresas acontecerão, uma vez que trabalhar sem sair de casa terá impacto até mesmo nas compras do mês, considerando que haverá pelo menos uma refeição diária (R$ 5,34[5] segundo levantamento, feito pelo Laboratório de Ciências Sociais Aplicada, da Universidade de Sorocaba) diretamente relacionada ao seu negócio.

Como você observou, trabalhar sem sair de casa pode até ser econômico, mas também tem seu preço, em nosso exemplo temos um custo fixo mensal de R$ 615,00. Se você ainda tem dúvidas sobre o seu volume de negócios na pior das hipóteses cobrir os custos fixos (além de avaliar também o seu aluguel, se for o caso), talvez não seja uma boa ideia dar seu grito de independência.

Disciplina é tudo

Uma das primeiras afirmações que costumamos ouvir quando o assunto é home office, é que sem disciplina não funciona, e por isso é necessário se vestir como se fosse sair de casa para trabalhar normalmente. Nós acreditamos que trabalhar de forma confortável aumente o foco e eficiência, então nos damos ao luxo de trabalhar sempre à vontade, a menos que haja alguma videoconferência na agenda, é claro.

Outra afirmação bastante comum trata-se dos horários de trabalho, há quem defenda por exemplo, que é preciso estar acordado bem cedo, ou aqueles que buscam o home office para se defender das horas-extra nos empregos tradicionais. O que aprendemos em nosso tempo de mercado, é que a disciplina está muito mais relacionada ao volume de trabalho e resultados entregues, que à sua carga horária semanal, então, se você acredita que o home office (por conta própria) será a sua saída para trabalhar das 9h às 17h, talvez seja legal reavaliar a estratégia, pois com clientes de outros países na sua carteira, por exemplo, a diferença de fuso horário pode facilmente estender seu expediente até a madrugada.

Entendemos que a disciplina para tocar um negócio próprio através do home office esteja na capacidade de manter a constância e o ritmo de trabalho, regularidade, evitando desviar o foco por conta de assuntos aleatórios ou da procrastinação (a qual você perceberá o quanto era ruim para o seu chefe, enquanto você passava o dia no Facebook).

Se pudermos dar um conselho para quem planeja empreender sem sair de casa, diríamos que é bom estar preparado para trabalhar o quanto for preciso, sejam 4 horas diárias quando os projetos assim permitirem, ou 18 quando necessário. Mas como assim 4 horas diárias? Muitos leitores podem se perguntar. A resposta é simples, planejamento! Observando a importância e complexidade dos projetos, é possível encarar uma rotina intensiva de trabalho, onde o isolamento e o hiperfoco ajudarão a concentrar um dia de trabalho na metade do tempo habitual (o FreelaEmCasa testou!).

Mas você fica em casa o dia inteiro!

Se você não mora sozinho, é preciso ter em mente a importância de estabelecer uma fronteira bem clara e inviolável para seu escritório, pois a presença constante pode ser interpretada de forma equivocada por amigos e familiares, e acabar consequentemente prejudicando o foco no negócio.

No fim das contas caberá a você entender o momento do seu negócio, seja no ciclo de vida ou no dia-a-dia, para compreender quando é possível relaxar sem colocar em risco os seus resultados.

 

Nosso objetivo é estimular uma análise crítica do mercado e de algumas opções disponíveis, e não simplesmente oferecer respostas, então considere este artigo como um ponto de partida e enriqueça com outras variáveis, como a análise do seu mercado, planeje o suficiente para o seu start e sucesso! Fique à vontade para comentar e deixar suas opiniões.

 

 

[1] http://www1.folha.uol.com.br/infograficos/2013/10/78564-quanto-tempo-o-brasileiro-gasta-para-ir-ao-trabalho.shtml

[2] https://www.sine.com.br/media-salarial-para-publicitario

[3] http://www.calculador.com.br/calculo/salario-liquido

[4] http://www.precomediosodexo.com.br/Content/pdf/Sodexo-Tabela_Completa-Preco_Medio-2017.pdf

[5] https://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/540926/comer-fora-custa-ate-140-mais-caro-do-que-em-casa