Por Alexandre Rocha

Algum tempo depois das notícias sobre a atual crise sanitária avançar pelo mundo, o Ministério da Saúde confirmava o primeiro caso da Covid-19 aqui no Brasil, no dia 26 de fevereiro, mesmo dia em que, ironicamente, os foliões se despediam do Carnaval numa melancólica quarta-feira de cinzas.

No momento em que escrevo este artigo, quase 150 dias já se passaram e, tópicos como novo normal, inovação e produtividade seguem em alta, garantindo espaço em praticamente qualquer diálogo inofensivo. Enquanto caminhamos em agonia para 200 dias de um cenário crítico cheio de incertezas, há quem ainda esteja em uma fase de reflexão sobre o que está por vir, a despeito do fato de que assim como o tempo não faz pausas, tudo que é novo segue surgindo (como sempre) a cada fração de segundo.

Na posição de empreendedor (mas longe da forma poética que a internet vende, daquele empreendedor-herói, referência, livre de consequências e chacoalhadas dos movimentos de mercado) acredito plenamente que a capacidade de (re)ação rápida seja fundamental para manter os negócios saudáveis,  garantindo que a falta de timing não nos ponha a perder as boas ideias.

Assim como mudam o mercado e tudo aquilo que respira, o mundo está em constante evolução, então, não podemos cometer o pecado de chegar do outro lado da mesma maneira como entramos num processo tão crítico para a humanidade. Eu ousaria afirmar que ‘melhorar’ é uma meta a ser perseguida tanto para a vida, quanto para os negócios.

É ‘pra’ ontem!

Se por um lado é difícil não replicar o onipresente discurso sobre o ‘novo normal’, é extremamente simples perceber a sua eficácia em projetar o que é urgente para algum ponto no futuro, como se ainda houvesse tempo suficiente para ensaiar a mudança. Infelizmente, milhares de negócios não voltarão a abrir, um cenário catastrófico cuja dimensão parece não ter sido compreendida integralmente por alguns daqueles que seguem em atividade.

É praticamente uma questão de vida ou morte entender que o cenário de crise exige comprometimento em dobro, assim como agilidade na tomada de decisão para minimizar eventuais lacunas que possam servir de vantagem competitiva para seus concorrentes. Em outras palavras, diria que estamos vivendo um momento que pede mais realização que contemplação, e certamente não perdoará o empreendedor que seguir aguardando que tudo se encaixe, ou inventando variáveis para avaliar se determinada ação vale a pena.

Assim como o foco no consumidor e a demanda por soluções capazes de tornar o mundo melhor são velhos conhecidos, não é de hoje que a busca por excelência representa um esforço constante para quem está a frente de um negócio e, quanto mais cedo você, empreendedor, perceber que o mundo já era exigente mesmo antes da pandemia, mais rápido reagirá aos movimentos de mercado, como se sincronizasse o relógio biológico do seu negócio com a vida real.

Atravesse rápido, mas não esqueça de olhar para os dois lados

Ainda que defenda a necessidade de agir, preciso esclarecer que não é inteligente realizar ações de forma deliberada, sem analisar riscos ou estabelecer objetivos e metas. A ideia central é que cada passo seja avaliado de forma objetiva o bastante para tomar o menor tempo possível, permitindo que você descarte ou converta ideias em ações imediatas, enquanto elas ainda têm valor.

Imagine uma estrada bem larga, mais precisamente 8 faixas. É óbvio que diante da necessidade de atravessá-la a pé, o volume de veículos trafegando possui uma relação direta com o risco para atingir a meta de chegar ao outro lado, assim como demandará ritmo e velocidade específicos, certo?

Observe que a analogia aponta o momento de tráfego intenso que vivemos, além disso, é igualmente clara a inevitabilidade de não podermos escolher entre responsabilidade, ritmo ou velocidade (e quem disse que a vida é justa?), como empreendedores e adultos maduros, é inegociável que saibamos aceitar que as responsabilidades são acumulativas.

Filosófico! Mas, e a prática?

Pois como muitos diriam, falar é fácil, já fazer… Então, chegamos a um ponto que considero útil tanto para quem me deu a honra de acompanhar o raciocínio até aqui (obrigado😉), quanto para quem está buscando alguma sacada do tipo “x passos para resolver um problema pensando pouco (ou nada)”.

– Valorize as recomendações de profissionais. Analise-as com seriedade, pois podem conter oportunidades e indicar riscos iminentes.

– Entenda (de verdade) que quem lhe dá uma hora de atenção compartilha algo que não tem preço, e considere que uma hora de informação contém anos de formação.

– Evite ao máximo deixar sem resposta um email que contém uma pergunta. Uma cadeia de ações rumo a um resultado brilhante pode literalmente encalhar naquele email que você não valorizou.

– Seja o primeiro a tentar derrubar as suas novas ideias. Se você consegue abalar uma ideia com muita facilidade, pode ter encontrado pontos de melhoria, ou ter descoberto que não era realmente boa. Traduzindo, não perca semanas pensando em uma ideia, descarte ou realize.

– Se couber a você gerenciar, saiba delegar. Compreenda e internalize a sua responsabilidade de otimizar os negócios e levar sua equipe a outro patamar, sendo assim, não perca tempo microgerenciando. Tenha os melhores para fazer, seja o melhor para liderar!

– Não seja escroto com a sua equipe (nem com ninguém!). Se você teme que não estejam sendo produtivos no home office, reveja seus critérios de recrutamento, pois uma equipe realmente engajada precisará ser estimulada a respeitar os horários de descanso e não o contrário.

– Não espere resultados milagrosos sem sacrifício. Se você investe 5x, e seu concorrente investe 50x, a menos que você tenha um diferencial competitivo poderoso e valor agregado superior, o resultado consiste numa questão simples de matemática.

 

É inegável que o mundo inteiro está financeira e psicologicamente abalado, uma situação trágica e inesperada, mas que também tem grande potencial para nos fazer enxergar e valorizar aquilo que não percebíamos há poucos meses.

Se você eventualmente ainda não havia entendido que a relação com o consumidor não trata de obter vantagem sobre o outro, mas da construção de relações baseadas na troca de valor, é um momento de aprendizado e humildade (a queda do próximo pode ser a minha derrota). Se você sobreviveu ou experimenta o crescimento, na contramão da crise, é hora de olhar para fora, aprender com a história e não se deixar inebriar pelo sucesso, afinal, sabemos que esta não é a primeira crise global, e muito menos será a última.